Páscoa: entre fé, memória, poder e consumo
A Páscoa é uma das datas mais difundidas do calendário ocidental, mas seu significado está longe de ser único. Dependendo da tradição religiosa, ela carrega sentidos distintos que vão da libertação coletiva à salvação espiritual, até chegar, nos dias atuais, à sua transformação em produto de consumo.
Na tradição judaica, a Pessach marca a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito. É uma celebração profundamente ligada à memória, à travessia e à construção de um povo que se reconhece a partir da resistência e da liberdade.
No cristianismo, a Páscoa assume outro eixo. Para a Igreja Católica e também para diversas tradições protestantes, ela representa a ressurreição de Jesus Cristo um símbolo de renovação, vitória sobre a morte e esperança espiritual. Ainda assim, mesmo dentro do cristianismo, existem diferenças de ênfase.
Entre igrejas históricas protestantes, o foco tende a ser mais litúrgico e teológico. Já no campo evangélico e, especialmente, nas correntes neopentecostais, a data é frequentemente ressignificada com maior liberdade, incorporando elementos contemporâneos e estratégias de mobilização religiosa.
Ao observar a Páscoa a partir de uma perspectiva de pretitude, algumas conexões se tornam inevitáveis.
A narrativa de libertação presente na Pessach dialoga diretamente com a experiência histórica da população negra na diáspora. A travessia, a resistência e a luta por liberdade não são apenas símbolos religiosos são dimensões concretas da formação social negra.
Da mesma forma, a ideia de ressurreição associada a Jesus Cristo pode ser lida como a insistência em existir e resistir, mesmo diante de processos históricos de desumanização, violência e apagamento.
No entanto, é preciso reconhecer uma contradição central: as mesmas estruturas religiosas que carregam discursos de libertação também foram, em muitos momentos, instrumentos de dominação e silenciamento das matrizes africanas.
Paralelamente a essas tradições, a sociedade moderna construiu uma outra Páscoa: a do consumo. O ovo de chocolate, símbolo amplamente difundido, pouco dialoga com os significados originais da data. Ele representa a apropriação comercial de uma celebração religiosa, transformando memória em mercadoria.
Esse deslocamento não é neutro. Ele revela como a lógica econômica é capaz de absorver símbolos culturais e religiosos, esvaziando seus sentidos mais profundos e substituindo reflexão por consumo.
Este editorial parte, portanto, da compreensão de que a Páscoa é também um espaço de disputa simbólica. Diferentes tradições, instituições e interesses disputam o significado da data seja como libertação, fé, identidade ou consumo.
Ao mesmo tempo, evidencia-se um processo contínuo de apropriação cultural pelo capital, no qual símbolos originalmente carregados de sentido histórico e espiritual são convertidos em mercadoria, esvaziando seu conteúdo crítico e coletivo.
E, nesse processo, a desigualdade também se manifesta: enquanto o consumo é apresentado como universal, ele continua sendo seletivo e a população negra, historicamente marginalizada, permanece em posição desigual até mesmo nesse acesso.
Diante disso, cabe uma pergunta necessária: o que estamos, de fato, celebrando?
Seja como memória de libertação, como expressão de fé ou como prática social, a Páscoa continua sendo um campo de disputa simbólica. E talvez o maior desafio esteja justamente em não permitir que seu significado seja reduzido ao consumo, ignorando as dimensões históricas, políticas e coletivas que lhe deram origem.
Porque, no fundo, a questão não é apenas religiosa.
É política.