Catequese, Evangelismo e a Fragmentação do Povo Preto
A história nos mostra que a catequese colonial e, mais tarde, o evangelismo expandido nos territórios negros não foram apenas experiências religiosas, mas também projetos de organização social impostos de fora para dentro. Converter corpos e consciências sempre foi parte do processo de dominação.
Não se trata de atacar a fé. A fé sempre esteve presente na resistência preta. O problema começa quando ela substitui a organização coletiva, desloca a luta do campo político para o moral e enfraquece a construção de unidade.
Os efeitos dessa fragmentação são visíveis e cotidianos. Um deles é a enorme dificuldade de convencer pessoas pretas da importância de construir um projeto político próprio, sólido, disciplinado e duradouro. Fala-se muito em representatividade, mas hesita-se quando o debate envolve organização, partido, estratégia e poder.
Enquanto fomos catequizados e evangelizados, não fomos educados para pensar como povo organizado. Fomos ensinados a esperar que tudo se resolva “pela vontade de Deus” ou pela ação de algum “ungido”, transferindo responsabilidades coletivas para figuras salvacionistas. Isso não tem relação com Jah, da nação Rastafari, que afirma consciência e libertação, mas com um messianismo político travestido de “Deus, Pátria e Família”, que dispensa organização popular, exige fé cega e mantém o povo esperando milagres em vez de construir poder.
Não é coincidência que iniciativas pretas de organização política encontrem tanta resistência interna. A fragmentação é funcional a um sistema que se beneficia de um povo disperso, desconfiado de si mesmo e avesso à construção de instrumentos próprios de poder.
Este texto não é acusação; é alerta. Sem unidade mínima, não há projeto político possível. Sem projeto, seguimos reagindo, nunca decidindo. Fé pode caminhar junto, mas não substitui consciência, organização e compromisso coletivo.
Márcio Madeira ∴
Portal Coisas de Gente Preta. Informação, consciência racial e compromisso político.