YEDO FERREIRA: MEMÓRIA, INSTITUCIONALIDADE E REPARAÇÃO NA HISTÓRIA DA LUTA NEGRA BRASILEIRA

À sociedade civil negra brasileira

Amanhã será celebrado o aniversário de Yedo Ferreira, uma das figuras históricas da trajetória do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras IPCN. Não poderei estar presente fisicamente nesta celebração, mas considero necessário registrar, por meio da palavra, o reconhecimento à sua trajetória e à contribuição que prestou e continua prestando à construção da luta negra organizada no Brasil.

Minha relação com Yedo Ferreira se aprofundou quando tive a oportunidade de exercer a presidência do IPCN. Foi nesse período que pude conhecê-lo mais de perto, conversar, trocar experiências e, sobretudo, aprender. Mais do que um encontro entre gerações, aquela convivência representou para mim uma aproximação concreta com parte da memória política e institucional do movimento negro brasileiro.

Yedo Ferreira é um dos últimos remanescentes dos membros fundadores do IPCN, instituição que ocupa lugar singular na história da organização política e cultural da população negra brasileira. Minha passagem pela presidência da instituição permitiu compreender, de maneira ainda mais profunda, a dimensão de sua contribuição para a construção e a continuidade desse patrimônio político.

Entre suas contribuições institucionais, merece destaque sua participação na elaboração e reestruturação do Estatuto do IPCN, particularmente no trabalho realizado em 1990. Naquele momento, Yedo demonstrou uma compreensão política e administrativa que ultrapassava as circunstâncias imediatas de sua época.

Um exemplo particularmente significativo foi a incorporação dos Grupos de Trabalho GTs à estrutura institucional, posteriormente normatizados no Estatuto, especialmente no Artigo 58, §§ 1º e 4º. A criação e regulamentação desses mecanismos revelavam uma compreensão avançada acerca da necessidade de uma instituição negra possuir estruturas capazes de organizar conhecimento, formular propostas, desenvolver ações específicas e responder às transformações sociais.

Essa decisão, tomada décadas antes da ampla incorporação das tecnologias digitais às organizações sociais, revelou-se particularmente importante durante minha gestão na presidência do IPCN.

A pandemia de COVID-19 impôs às instituições brasileiras uma transformação abrupta em seus mecanismos de funcionamento. Reuniões, debates, deliberações e processos de organização passaram a ocorrer por meios remotos. No caso do IPCN, a existência de uma estrutura estatutária que já contemplava os Grupos de Trabalho permitiu maior capacidade de adaptação institucional, sem que fosse necessário promover uma alteração emergencial do Estatuto para responder às novas condições impostas pela pandemia.

É nesse ponto que a história institucional encontra a dimensão da memória.

Uma decisão tomada em 1990 produziu efeitos concretos décadas depois. A visão de Yedo Ferreira ajudou a preservar a capacidade de funcionamento de uma instituição histórica justamente em um dos períodos mais críticos da história contemporânea.

Esse episódio demonstra que a atuação de lideranças negras não pode ser analisada apenas pelas ações de seu tempo. Algumas contribuições possuem caráter estruturante: permanecem incorporadas às instituições e continuam produzindo efeitos mesmo quando as circunstâncias históricas que motivaram sua criação já se transformaram.

Mas a trajetória de Yedo Ferreira não se limita à dimensão administrativa ou estatutária. Sua contribuição deve ser compreendida dentro de uma tradição maior de pensamento político negro, organização coletiva, produção de memória e reivindicação de direitos.

Yedo esteve e permanece vinculado a uma agenda histórica que compreende a necessidade de enfrentar as consequências estruturais do racismo e de construir mecanismos efetivos de reparação histórica para a população negra brasileira.

Sua atuação na articulação da pauta da reparação histórica merece ser reconhecida como parte de um processo mais amplo de formulação política do movimento negro brasileiro. A reparação não deve ser compreendida apenas como uma reivindicação econômica, mas como um princípio político e histórico relacionado ao reconhecimento dos danos produzidos pela escravidão, pelo racismo estrutural e pelas desigualdades que dela se prolongaram.

Nesse sentido, preservar a memória de Yedo Ferreira significa também preservar uma parte da história intelectual e política da sociedade civil negra brasileira.

Ao recordar sua trajetória, não estamos apenas homenageando um indivíduo. Estamos reconhecendo uma geração que compreendeu que a luta contra o racismo exigia organização, institucionalidade, produção de conhecimento, articulação política e capacidade de projetar o futuro.

Tive o privilégio de ocupar a presidência do IPCN e, nessa condição, pude compreender que administrar uma instituição histórica como aquela não significa apenas conduzir o presente. Significa também receber uma herança construída por aqueles que vieram antes e assumir a responsabilidade de preservá-la e ampliá-la.

Yedo Ferreira representa uma dessas referências.

Por isso, no momento em que se celebra seu aniversário, deixo aqui meu reconhecimento, minha gratidão e meu respeito.

Que a sociedade civil negra brasileira conheça e reconheça aqueles que ajudaram a construir suas instituições e suas estratégias de luta. Que as novas gerações compreendam que a história do movimento negro brasileiro também foi construída por homens e mulheres que, muitas vezes sem a visibilidade que mereciam, dedicaram sua inteligência, seu tempo e sua capacidade política à construção de instrumentos permanentes de emancipação.

Yedo Ferreira é memória viva de uma história que não pode ser esquecida.

E, para mim, ter podido conhecê-lo, dialogar com ele e aprender com sua experiência durante minha passagem pela presidência do IPCN foi uma das dimensões mais importantes dessa trajetória.

Neste aniversário, ainda que não possa estar presente, faço questão de estar representado por estas palavras.

Feliz aniversário, Yedo Ferreira.

Que sua história permaneça como patrimônio da memória política e institucional da população negra brasileira.

Márcio Madeira
Ex-Presidente do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras IPCN

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