Trump, Jair Messias Bolsonaro e Hamilton Mourão: o racismo como projeto de poder
Sempre que o racismo reaparece travestido de “liberdade de expressão”, a sociedade é colocada diante de uma escolha política inadiável: nomear a violência ou normalizá-la. Declarações racistas atribuídas a Donald Trump, incluindo a divulgação de vídeos que associam Barack Obama e Michelle Obama a macacos, não são desvios nem provocações fortuitas. São práticas conscientes, inscritas em uma longa tradição de desumanização do povo negro como método de afirmação de poder.
Nos Estados Unidos, esse tipo de conduta costuma ser protegido por uma interpretação ampla da Primeira Emenda. A lei permite. A história condena. Porque não se trata de opinião individual, mas de estratégia recorrente de projetos autoritários, acionada sempre que se pretende mobilizar medos, ressentimentos e hierarquias raciais.
Donald Trump não é um acidente político. Ele expressa o nazifascismo contemporâneo, reembalado em discurso populista, nacionalista e supremacista, no qual o ódio deixa de ser um desvio e passa a ser linguagem política legitimada por urnas, plataformas digitais e silêncio institucional.
No Brasil, esse espelho é incômodo porque revela muito sobre nós. Quando Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro exaltam Donald Trump, não assumem apenas afinidades ideológicas externas: reafirmam uma trajetória interna marcada pela desumanização. Em 2011, ainda como deputado federal, Jair Bolsonaro afirmou, em rede nacional, que não discutiria “promiscuidade” e que seus filhos não viveram em “ambiente como lamentavelmente é o teu”, ao ser questionado por Preta Gil sobre a possibilidade de um de seus filhos se relacionar com uma mulher negra. Não foi um deslize retórico. Foi a exposição crua de um racismo que associa negritude à degradação moral e transforma preconceito em identidade política.
Esse mesmo roteiro se reproduz no plano institucional. Não é irrelevante que Trump tenha difundido conteúdos racistas contra a família Obama, assim como não é secundário que, no Brasil, o então vice-presidente da República, Hamilton Mourão, tenha declarado publicamente que, em sua visão, não existe racismo no país. A desumanização aberta e a negação institucional operam juntas: uma agride, a outra legitima.
O cenário se completa com personagens que ocupam cargos públicos, púlpitos religiosos e espaços estratégicos de influência. Parlamentares como Nikolas Ferreira, o governador de São Paulo e setores do fundamentalismo religioso com destaque para figuras como Silas Malafaia contribuem para a manutenção de um ambiente político onde o racismo raramente é explícito, mas atua de forma estrutural, funcional e contínua, moldando discursos, políticas públicas e percepções sociais.
O escândalo, portanto, não é apenas a fala racista. O escândalo é a normalização, a ausência de consequências, a conivência institucional e o silêncio cúmplice travestido de neutralidade. É a tentativa permanente de relativizar o inaceitável, reduzindo a violência simbólica contra corpos negros à condição de “opinião”.
O resultado é concreto e cotidiano: pessoas negras seguem sendo alvos preferenciais da violência, da exclusão e do desprezo, enquanto seus algozes permanecem protegidos por cargos, mandatos, púlpitos e audiências digitais. Racismo não é excesso. Racismo não é erro. Racismo é estrutura. E, quando articulado ao autoritarismo e ao fundamentalismo político, torna-se projeto de poder que precisa ser nomeado, denunciado e enfrentado.
*Márcio Madeira ∴*
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