Quando o povo preto é lembrado apenas em ano eleitoral

Não é coincidência. É método.

A cada ciclo eleitoral, o povo preto volta a ser alvo de discursos calorosos, promessas genéricas e visitas protocolares. Surgem os acenos, as fotos, os compromissos públicos e as palavras cuidadosamente escolhidas para parecerem sensíveis à nossa dor histórica. Passado o período das urnas, o interesse esfria e o silêncio retorna ao seu lugar de costume.

Essa lógica não é nova, mas continua sendo eficaz porque se apoia em uma desigualdade estrutural profunda: a exclusão do povo preto dos espaços reais de decisão. Somos maioria demográfica, força cultural incontestável e base eleitoral decisiva, mas seguimos tratados como pauta acessória, convocados apenas quando convém.

O problema não está apenas em quem busca nossos votos, mas também no modelo político que naturalizou a ideia de que basta nos lembrar de quatro em quatro anos. Enquanto isso, nossas demandas seguem sendo adiadas, diluídas ou tratadas como favores nunca como direitos.

Falar de educação, saúde, segurança, cultura e trabalho sem colocar a população negra no centro é manter intacta a engrenagem que produz desigualdade. Não há política pública neutra em um país estruturalmente racista. Toda omissão é uma escolha.

Por isso, a tarefa do povo preto não pode ser apenas reagir a campanhas eleitorais, mas construir presença permanente: organização política contínua, memória ativa, vigilância crítica e compromisso com projetos que não nos tratem como massa de manobra.

O Instituto Coisas de Gente Preta reafirma seu papel nesse processo. Aqui, a pauta negra não depende do calendário eleitoral. Ela é diária, estruturante e inegociável. Nosso compromisso não termina na eleição ele começa muito antes e continua depois.

Porque o povo preto não pode ser lembrado apenas quando o poder precisa de votos.
Precisa ser respeitado quando exige transformação.

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