Por que o povo negro se tornou evangélico? Fé, pertencimento e o vazio deixado pelo Estado
Essa pergunta incomoda e, por isso mesmo, precisa ser feita. Não para atacar a fé de ninguém, mas para compreender um processo histórico, social e político que atravessa a experiência negra no Brasil.
O crescimento do evangelicalismo entre a população negra não se explica apenas pela religião. Ele resulta da ausência do Estado, da falência de políticas públicas continuadas e do esvaziamento de espaços históricos de organização negra. Onde o poder público não chegou, alguém chegou.
Antes disso, porém, o acolhimento cotidiano da população negra e de outras minorias sempre foi garantido por redes espirituais comunitárias. As casas de Candomblé, os centros espíritas, as benzedeiras e rezadeiras cumpriram, historicamente, funções de cuidado, escuta, cura, orientação moral e proteção simbólica, especialmente nos territórios onde o Estado nunca se fez presente. Esses espaços operavam como verdadeira assistência social informal, ancorada na tradição, na oralidade e na confiança comunitária.
Desde o pós-abolição, o povo negro foi lançado à própria sorte. Sem terra, sem indenização e sem políticas de integração, construiu formas de sobrevivência por meio de associações, irmandades, terreiros, clubes sociais, jornais e redes de solidariedade. A imprensa negra e as organizações de ajuda mútua garantiram dignidade onde o Estado se negava a existir.
Esse papel também foi exercido por instituições negras estruturadas. A Frente Negra Brasileira, nos anos 1930, os jornais O Menelick e A Voz da Raça e o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), fundado em 1975, cumpriram funções centrais de formação política, produção de conhecimento e afirmação identitária. O enfraquecimento desses espaços foi resultado de escolhas políticas e da ausência de apoio institucional.
A trajetória do protestantismo ajuda a compreender o deslocamento posterior. Ele surge no século XVI ligado a projetos coloniais europeus e, no século XIX, consolida-se como religião de imigrantes e de missões norte-americanas voltadas às camadas médias. Apenas no início do século XX, com o avanço do pentecostalismo, passa a ocupar territórios populares.
É nesse momento que muitos observam um processo decisivo: funções históricas de acolhimento, escuta e reorganização da vida comunitária, antes exercidas por terreiros, centros espíritas, benzedeiras e rezadeiras, passam a ser progressivamente absorvidas por projetos protestantes, agora estruturados, midiáticos e territorializados. Não se trata apenas de conversão religiosa, mas de substituição institucional do cuidado em contextos de abandono social.
Nos Estados Unidos, parte das igrejas negras assumiu também papel político explícito. Foi desses espaços que emergiram lideranças como Martin Luther King Jr., articulando fé, direitos civis e enfrentamento do racismo estrutural. Isso demonstra que o problema não é a religião, mas a direção política que se dá a ela.
No Brasil, com a criminalização das religiões afro-brasileiras e o enfraquecimento das organizações negras, as igrejas evangélicas se expandiram com método, presença territorial e linguagem acessível. Ofereceram acolhimento e pertencimento onde o Estado falhou.
Para grande parte da população negra periférica, tornar-se evangélico significou reorganizar a vida em meio ao caos social. Trata-se menos de crença individual e mais de sobrevivência social.
O problema central não é a fé, mas sua captura política e o silêncio diante do racismo religioso, quando tradições negras são demonizadas e apagadas, enquanto outras são legitimadas como únicas formas aceitáveis de espiritualidade.
A pergunta, portanto, precisa ser ampliada: por que o povo negro encontrou acolhimento nas igrejas, mas não encontrou proteção do Estado, respeito às suas religiões ancestrais ou reconhecimento pleno de sua cultura?
Enquanto isso não for enfrentado com honestidade histórica, a fé seguirá sendo, para muitos, o último lugar de acolhimento revelando mais sobre o fracasso do Estado e da política brasileira do que sobre a religião.