Música preta brasileira
MPB (Música Preta Brasileira) origem preta, gestão branca, lucro desigual.
Conclusão necessária.
A MPB (Música Preta Brasileira) é preta na origem, branca na gestão e desigual na distribuição de lucros. Enquanto esse modelo persistir, não estaremos falando apenas de música, mas de racismo estrutural operando em pleno funcionamento.
Denunciar esse processo é obrigação. Romantizá-lo é cumplicidade.
A chamada Música Popular Brasileira foi construída sobre bases negras. Ritmos, corpos, vozes e territórios sempre foram pretos. O que se altera ao longo do tempo não é a fonte criadora, mas quem passa a controlar, administrar e lucrar com essa produção cultural.
Esse padrão não é novo. Ele se repete historicamente.
Lundu: quando o corpo preto é substituído.
O Lundu nasce como expressão musical e corporal dos negros escravizados. Por isso foi criminalizado. O que toma o seu lugar não é outro ritmo, mas sua versão embranquecida, adaptada aos salões da elite e esvaziada de corpo, território e sentido político.
Como aponta Muniz Sodré, a cultura negra é frequentemente deslocada de seu lugar de origem para ser reorganizada segundo os interesses das elites. O povo preto perde o protagonismo; a elite ganha o produto. O método da apropriação está inaugurado.
Jongo: quando o apagamento vira regra.
O Jongo é música, mas também é organização comunitária, espiritualidade e linguagem de resistência. Sustenta a formação do samba, mas não herda reconhecimento. O que toma o seu lugar é o silêncio institucional.
Segundo Lélia Gonzalez, a cultura negra estrutura a identidade nacional ao mesmo tempo em que seus sujeitos são apagados. A resistência permanece viva, porém fora da mídia, fora do mercado e fora das políticas públicas.
Pagode moderno: exclusão atualizada.
No pagode moderno, a exclusão deixa de agir apenas sobre o corpo e passa a operar pelo acesso aos meios de produção. Uma máxima que circulou com força nas décadas de 1970 e 1980 dizia que o cavaquinho era o único instrumento que o preto podia tocar, porque, mesmo algemado, ainda poderia ser executado. Mais do que literal, essa frase revela um dado estrutural: a música preta sempre foi produzida sob vigilância e contenção.
Hoje, o controle se atualiza. A substituição dos instrumentos tradicionais por equipamentos tecnológicos caros cria novas barreiras, afastando jovens pretos das comunidades que não podem arcar com esses custos. O que antes era limitação física, agora é exclusão econômica ainda profundamente racializada.
Mídia, casas noturnas e Estado.
A mídia escolhe perfis, e eles raramente são os dos jovens pretos de comunidade que sustentam o gênero. Enquanto isso, casas noturnas se apropriam dessa mão de obra artística, pagando pouco e lucrando muito muitas delas comandadas por profissionais da área da segurança pública que, além do sustento estatal, ampliam seus ganhos explorando quem não tem proteção alguma.
A omissão do poder público aprofunda o cenário. A fiscalização é frágil, o cumprimento das obrigações do ECAD é ignorado e os direitos autorais seguem burlados. Nesse contexto, chama atenção o contraste entre a presença simbólica do prefeito Eduardo Paes em movimentos musicais e a ausência de políticas públicas estruturantes voltadas à proteção dos trabalhadores da música, especialmente os jovens pretos das periferias.
Encerramento.
A MPB (Música Preta Brasileira) transformou-se em patrimônio cultural e discurso oficial. Mas a arte preta de resistência que a sustenta segue tratada como mão de obra descartável. Não se trata de menos música. Trata-se de menos arte preta ocupando o centro do poder, da mídia e da distribuição de lucros.
Enquanto essa estrutura não for enfrentada, toda celebração seguirá sendo vazia e toda celebração sem justiça continuará sendo apenas mais uma forma de violência simbólica.