Entre o pão, o circo e o racismo estrutural: o projeto de poder de Eduardo Paes
Encerramos 2025 com a obrigação ética de provocar reflexão. Quando o poder público flerta com símbolos da cultura negra, mas se afasta do compromisso real com a dignidade do povo preto e das religiões de matriz africana, não estamos diante de inclusão estamos diante de oportunismo político.
O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, hoje pré-candidato ao Governo do Estado, construiu ao longo dos anos uma imagem pública marcada pela presença constante nos territórios simbólicos da negritude carioca: desfiles de Carnaval, lavagem do Sambódromo, visitas a quadras da Portela e do Império Serrano, aparições calculadas em eventos que mobilizam afeto, identidade e memória coletiva.
Mas é preciso perguntar: a quem serve essa presença?
À valorização estrutural da população negra ou à lógica do pão e circo, que entretém enquanto silencia demandas históricas?
A conivência com o racismo estrutural se revela não apenas pelo que se faz, mas sobretudo pelo que se tolera. Quando religiões de matriz africana seguem sendo atacadas, criminalizadas e desrespeitadas; quando terreiros continuam sendo alvos de violência simbólica e material; quando lideranças religiosas negras são deslegitimadas o silêncio institucional também é uma escolha política.
Chamar o Babalorixá Ivanir dos Santos, uma das maiores autoridades nacionais na defesa da liberdade religiosa, de “preconceituoso” não é um deslize retórico. É um gesto grave. Revela desprezo por uma trajetória construída com diálogo, resistência e compromisso com o Estado laico. Revela, sobretudo, o incômodo que vozes negras autônomas causam quando não se submetem à encenação do poder.
Causa ainda mais estranhamento que esse mesmo gestor demonstre enorme diligência em visitas à igreja do pastor Silas Malafaia, enquanto assiste passivamente à expansão de símbolos cristãos institucionalizados como a construção de um batistério em Copacabana sem o mesmo zelo quando se trata das expressões religiosas de origem africana. O Estado que escolhe quais crenças acolher publicamente deixa de ser laico.
O chamado “Cais do Valongo”, patrimônio da memória da diáspora africana e da escravização, não pode ser tratado como um adereço político ou, pior, como um despacho simbólico à porta da Prefeitura, esvaziado de políticas públicas consistentes de reparação, educação e preservação histórica.
O que está em jogo não é fé, cultura ou Carnaval. É poder.
É o uso maquiavélico de símbolos negros para obtenção de popularidade, enquanto se mantém intacta a estrutura que marginaliza o povo preto no acesso à cidade, à segurança, à moradia, à memória e ao respeito religioso.
Este editorial não é sobre 2025 apenas.
É um alerta para 2026.
O povo preto do Rio de Janeiro não é cenário de campanha.
Nossa fé não é instrumento eleitoral.
Nossa cultura não é moeda de troca.
Seguiremos atentos.
Seguiremos denunciando.
Seguiremos exigindo coerência de quem pretende governar este estado.
Coisas de Gente Preta
Porque memória, dignidade e consciência não se negociam.